19 de Maio de 2012, 00:07

Autor Tópico: Comentário sobre a natureza e causas da propriedade, instituições e civilização  (Lida 1161 vezes)

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Offline user f.k.a. Cabeção

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Comentário sobre a natureza e causas da propriedade, instituições e civilização
por user f.k.a. Cabeção



No mundo natural, recursos são empregados, ou consumidos, por indivíduos, ou agentes. Certos recursos são de uso intrinsecamente exclusivo de um indivíduo: sua inteligência ou força física, por exemplo. Outros recursos podem ser igualmente aproveitados por dois indivíduos diferentes, como a carcaça de uma gazela ou uma lata de coca-cola. Esses recursos são escassos na medida em que podem ser usados para fins alternativos por um indivíduo (sua inteligência ou força) ou sua quantidade disponível não é suficiente para satisfazer todos os indivíduos (a lata de coca-cola). Recursos escassos são elementos da teoria econômica.

Alguns recursos podem ser considerados na maioria das situações como não escassos: o ar respirável por exemplo. Ele simplesmente existe em quantidade satisfatória para todos os indivíduos, e não existem muitos usos alternativos excludentes para ele. Assim "ar respirável" não é um elemento econômico na maioria dos contextos. O seu fôlego, por outro lado, é escasso, já que você não pode correr por tempo indeterminado, mas o que se chama de "falta de ar" é na verdade falta de fôlego, que é o uso que o organismo pode dar para o ar que recebe. Fôlego é um bem econômico, faz sentido "economizar" fôlego.

Assim, de maneira mais formal, problema economico do indíviduo consiste em escolher entre os diferentes cenários futuros projetados por ele aquele que mais o satisfaz, levando em conta as limitações dos recursos que ele pode empregar para perseguir cada cenário. Para que o problema não seja trivial, é preciso haver dois ou mais cenários mutuamente exclusivos de emprego de recursos, obrigando o indivíduo a avaliar qual é o cenário que mais o satisfaz.

O problema da ordem social é um problema subordinado ao problema econômico num contexto onde alguns recursos existentes podem ser consumidos por dois ou mais agentes, de maneira mutuamente excludente. O indivíduo precisa assim antecipar as soluções do problema econômico dos outros agentes quando realiza a sua própria.

Assim, um lago pode ser uma fonte de água comum porém não escassa para uma manada de gnus e zebras, que não levam as presenças mútuas em consideração, mas uma carcaça de gazela deve ser disputadas entre hienas e leões, que precisam considerar a presença mútua.

Esse problema é resolvido atraves da definição de vantagens comparativas incrementais: alguns agentes podem usar seus recursos exclusivos (informação ou posição geográfica privilegiadas) de maneira a conseguir acesso aos recursos disputados mais rapidamente, ou pode fazer uso de um recurso exclusivo especial, a violência, para dissuadir competidores criando-lhes um custo adicional ao que teriam sem a presença do agressor.

O problema da ordem social se torna especialmente complexo quando agentes podem aprender, ou seja, alterar a maneira como projetam o cenário futuro de acordo com o comportamento passado dos demais. Como a violência introduz um custo adicional, pode ser interessante engajar-se num comportamento co-opertivo. Co-operar nada mais é nesse contexto do que restringir o emprego potencial do seu recurso exclusivo da violência contra um agente econômico num determinado contexto em função das vantagens individuais que essa restrição pode conferir. Isso só é possível a partir do aprendizado, quando os agentes desenvolvem reputações e seu comportamento é relativa e mutuamente previsível. Essa forma de co-operar reconhecendo mútuamente um contexto de direitos de uso de recursos é a origem da instituição da propriedade privada.

As vantagens introduzidas por essa forma de co-operação são várias. Cada agente pode dedicar menos atenção a amealhar recursos para gerar violência, e se concentrar em vantagens mais diretas para si. Ao mesmo tempo esse reconhecimento mútuo de direitos de propriedade sobre recursos pode ser comutado, quando parecer vantajoso para ambas as partes, dando origem ao processo de trocas comerciais. Isso permite a especialização, e o aumento da produtividade relativa decorrente da divisão do trabalho.

E importante parar um pouco e compreender bem o que o conceito de reputação acima quer dizer, pois ele está na origem da aparição daquilo que entendemos por instituições. Reputação de um indivíduo é a memória que as outras pessoas têm do seu comportamento passado. A reputação não é uma propriedade do indivíduo, mas uma percepção dos outros agentes sobre a previsibilidade e coerência do comportamento daquele indivíduo com o princípio natural de não-agressão mútua descrito acima e suas diversas derivações, dentro dos contextos onde esse princípio passou a vigorar. É a emergência de uma reputação que permite um certo controle, ainda que limitado, sobre os indivíduos mais dotados de recursos de violência. Se eles fizerm uso considerado ilegítimo desse recurso, eles perdem a sua reputação e as vantagens comparativas geradas por ela. Em particular, um grupo pode co-operar e ostracizar um membro de reputação muito negativa, mesmo que ele individualmente seja mais forte do que cada membro do grupo individual.

Reputações, positivas e negativas, morreriam com os indivíduos. Mas a comunicação entre os indivíduos permitiu a geração de um mecanismo de transferência dessa memória e experiências passadas, atraves das instituições tradicionais. Tradições e instituições são formas compactadas de transferir as percepções geradas atraves das gerações de quais comportamentos co-operativos, ou sociais, possuem alta reputação e quais comportamentos são anti-sociais, ou seja, devem ser ostracizados. Assim indivíduos não precisam conhecer o histórico de comportamentos que gerou uma determinada percepção negativa, ele apenas precisa reconhecer um valor tradicional e avaliar o comportamento dos outros segundo esse valor. Essa herança moral permite transferir e selecionar a memória das interações experiências do passado, e impedir que as reputações geradas morram com os indivíduos que as portaram.

Essas tradições eram transmitidas oralmente, e em geral seu conteúdo informacional era acompanhado de narrativas alegóricas relativamente explicativas, que com o tempo aumentavam em escopo, abrangência e riqueza conceitual, se transformando nos mitos originários das religiões, que surge como um processo sistemático de transmissão da informação institucional. Não somente informação de carater legal era transmitida por esse veículo, mas mesmo informação prática sobre o "mundo natural", como os ciclos sazonais do clima e outros fenômenos naturais padronizados. Apesar de interessante, essa parte não será tratada aqui.

Essa descrição acima permite identificar o reconhecimento de algum direito de propriedade privada como a origem da comunicação interindividual co-operativa, e também intergeracional, através das tradições, e do ganho de complexidade dessas interações atraves do processo de destilação do conhecimento moral, cuja informação é transferida e compactada nas nossas diversas instituições culturais.

As implicações dessas últimas considerações são profundas. Descrito de outra forma, simplesmente temos que o que quer que entendamos por civilização nasce da propriedade privada e do mercado. A evolução das instituições do mercado é o próprio processo civilizacional, através do qual os originais métodos violentos são substituídos pela co-operação mutuamente eficaz a medida que o conhecimento humano se desenvolve e aumenta.

Em nenhum momento no descritivo acima qualquer tipo de solução moral foi "descoberta" por um indivíduo e imposta a todos os demais, como uma revelação, exceto de modo bastante figurativo, ilustrado em lendas e mitos que encurtavam bastante essa história.

E dele podemos então entender o caráter místico do progressivismo. Embora nossas lendas sejam repletas de imposições divinas e revoluções prometéicas, o ponto é que elas existem apenas como lendas de um passado distante, servindo a comunicar um valor cultural e moral de maneira simples, compreensível e memorável.

Progressistas no entanto se vêem como a materialização de um desses personagens lendários, trazendo o conhecimento da moral do futuro para a humanidade, obtido em suas visões, similares as visões divinas que orientaram os patriarcas, messias e profetas passados. Eles são portanto santos auto-canonizados, heróis auto-untados.

E nesse sentido eles são mais primitivos que os povos antigos que cultivavam essas lendas, já que estes de certa forma sabiam inconscientemente para que suas lendas serviam e não misturavam sua auto-imagem a dos mitos ali representados.

Ocorre que seu carisma eventualmente permite que as pessoas comuns, tão ignorantes quanto eles do processo tradicional de destilação da experiência moral da humanidade, vejam essas empreitadas messiânicas com o mesmo carinho que tem para com os personagens das tradições e lendas do passado, autorizando assim suas campanhas moralizadoras.

Da vaidade e da tentativa de serem deuses, os progressistas recriam o inferno. Vale a pena meditar a relevância e implicações dessa conclusão teológica.

« Última modificação: 16 de Março de 2011, 11:18 por user f.k.a. Cabeção »
[N]ão é uma "conspiração" propriamente dita aquilo que denunciamos, mas apenas os efeitos cumulativos devastadores de uma série de ideários progressistas que podem ser promovidos sem a necessidade de qualquer grande centralização, sem uma sinistra organização secreta para dominação e destruição do mundo.
- ímpio, sobre conservadores

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Um exemplo do processo de destilação do conhecimento moral descrito é o anti-semitismo, vastamente documentado nos dois últimos milênios, onde a tradição, independemente de ser justificada, justifica o comportamento co-operativo no emprego potencial do recurso da violência.

A criação do Estado de Israel, por sua vez, foi um tipo de solução moral "descoberta" por uma minoria dotada de poder e imposta a todos os demais - progressista por definição, em resposta ao emprego do recurso de violência justificado pela tradição.

Pode-se alegar a partir disso que o Estado de Israel é um bom exemplo das consequências negativas do progressismo - mas também que a própria tradição, idependente se justificada ou não, pode levar a desfechos tão ou mais destrutivos, pelo próprio acúmulo gradual no processo de destilação do conhecimento moral.

Exemplos diversos do potencial destrutivo dos tradicionalismos e progressismos não faltam para colocar a ambos no mesmo saco.

Nem toda tradição é fruto da destilação do conhecimento moral positivo - muitas vezes elas brotam da superstição e misticismo injustificado, acumulando gradualmente um grande potencial, destruindo tudo em volta quando arrebenta, podendo levar a soluções posteriores tão destrutivas quanto. Da mesma forma, nem todo progressismo é uma resposta a tradições nocivas. Ambos devem sempre ser postos à prova, questionados - sobretudo no que diz respeito às motivações.

Tanto há tradicionalismos benéficos quanto progressismos maléficos e vice-versa. O que, numa época, contribui para o bom funcionamento da sociedade, pode, numa época posterior, contribuir para o oposto. E tanto os inimigos da tradição quanto os inimigos do progresso são inimigos da sociedade, por julgarem conhecer a fórmula. Não existe fórmula. Cada tempo tem seus próprios desafios.

Progressistas e conservadores vão buscar no passado a projeção de suas aspirações futuras, ambos de forma equivocada, selecionando apenas aquilo que suporta sua própria ideologia - e ambos causam estragos, insentando-se de suas responsabilidades.

Não conheço solução, mas o meio que até hoje na história se mostrou o mais confiável foi o questionamento - dos hábitos, costumes, tradições, instituições, conhecimento acumulado, adquirido e propostas otimistas. E o mais falho - a certeza.

Fatalmente, o próprio progresso abrupto e initerrupto do conhecimento, principalmente, o científico - reflete inevitavelmente nos hábitos, costumes e instituições sociais - muito mais com a globalização do acesso ao conhecimento, promovido pela própria ciência e ao "desconhecimento" promivo pela tradição.

O progresso é a tradição do presente.

Tem jeito, não! :/



 
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Offline Kika

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Continuando...

O progresso científico é o motor do progressismo - em todas as esferas da atuação humana e nada mais ocidental do que a ciência moderna. Por outro lado, nada mais comprovadamente falho do que o senso comum, embora nossos sentidos limitados insistam em dizer o oposto.

Foi a própria interpretação de teorias científicas que levou ao questionamento comum da existência de Deus, pedra fundamental da religiosidade ocidental, em torna da qual giram o misticismo e a superstição que sustentam hábitos, costumes e tradições mais enraizados - descontruindo-os progressivamente, embora persista o ranço.

Foi o conhecimento adquiro que levantou diversos debates, nas mais diversas esferas, sobre temas tracionalmente aceitos, pondo em dúvida o processo de destilação do conhecimento moral, questionando a própria moral dele extraído.

A própria introdução de uma nova forma de pensar e experimentar o mundo, explorá-lo, entendê-lo e modificá-lo, no lugar da tradicional adoração e temor ao obscurantismo - mudou drástica e, aparentemente, sem volta o rumo do Ocidente. Não por acaso os últimos séculos foram marcados por revoluções - essa é a própria identidade do Ocidente moderno - na vida, nas relações públicas e particulares, na religião, na filosofia, na política, na economia etc.

A ciência fornece entendimentos e que proporcionam saltos - que a tradição simplesmente não consegue acompanhar, sendo deixada para trás - se isso é bom ou ruim não sei, é apenas o que vejo - e o principal meio é o próprio pensamento científico disseminado no pensamento ocidental, cuja meta é pensar, explorar, descobrir, entender, modificar - em suma, planejar o futuro em todos os aspéctos, incorporando, inevitavelmente a esfera social.

O progressismo é, portanto, reflexo inevitável da mais representativa instituição ocidental moderna - a engenhosidade.

Tem jeito, não! II
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Offline user f.k.a. Cabeção

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Citação de: kika
Um exemplo do processo de destilação do conhecimento moral descrito é o anti-semitismo, vastamente documentado nos dois últimos milênios, onde a tradição, independemente de ser justificada, justifica o comportamento co-operativo no emprego potencial do recurso da violência.


O problema é que você só está disposta a chamar de tradição uma das correntes de pensamento, em particular aquela que se mostrou incompatível com a evolução da moral observada.

Mas tanto a atitude anti-semita quanto a aceitação dos judeus são tradições distintas e concorrentes.

O anti-semitismo ibérico nos séculos XV e XVI produziu as migrações das antigas comunidades judaicas da região para a Europa germânica protestante, mais tolerante a sua presença. Com esses judeus migrou também a tecnologia financeira e comercial que eles já haviam desenvolvido, e contribuindo para a subseqüente prosperidade desses países por alguns séculos, mas no final do século XIX até meados do século XX, algumas ideologias progressistas procuraram ganhar popularidade invocando o ódio contra minorias, e seu sucesso temporário se manifestou em grandes calamidades.

Alegar que o anti-semitismo é o resultado do apego a tradição é um pensamento muito pueril, pois ignora que tradições não são uniformes e é a exata diversidade de tradições concorrentes que permite a longo prazo revelar a moralidade superior de certas atitudes sobre as outras.

Esse é o único método de revelação da moral.

« Última modificação: 17 de Março de 2011, 07:53 por user f.k.a. Cabeção »
[N]ão é uma "conspiração" propriamente dita aquilo que denunciamos, mas apenas os efeitos cumulativos devastadores de uma série de ideários progressistas que podem ser promovidos sem a necessidade de qualquer grande centralização, sem uma sinistra organização secreta para dominação e destruição do mundo.
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Ricardo Correia

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Anti-semitismo não nasce do nada. Tem uma causa, esta é o cristianismo. A acusação aos judeus de terem matado Jesus é o ponto de inicio.
Culminou no genocídio que se conhece. Alias, a Europa viu-se livre dos judeus, enviando-os para a Palestina. O Anti-semitismo, acabou deste modo aplacado - primeiro por arrependimento e penitência, seguido de os terem enviado para fora da Europa.

Anti-semitismo é uma vil tradição...

Cabeção, acredito que você não se importe com a minha aceitação das suas ideias. No entanto, se considerar sensato atingir um publico mais vasto, aconselho-o a aceitar a imperfeição.
Tudo o que de mal ocorre, para você, sempre é culpa de uma perversidade externa. Pode ser que eu o esteja entendendo errado, mas é como o entendo.

« Última modificação: 17 de Março de 2011, 08:32 por Рикарду »

Offline Kika

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Citação de: kika
Um exemplo do processo de destilação do conhecimento moral descrito é o anti-semitismo, vastamente documentado nos dois últimos milênios, onde a tradição, independemente de ser justificada, justifica o comportamento co-operativo no emprego potencial do recurso da violência.


O problema é que você só está disposta a chamar de tradição uma das correntes de pensamento, em particular aquela que se mostrou incompatível com a evolução da moral observada.

Mas tanto a atitude anti-semita quanto a aceitação dos judeus são tradições distintas e concorrentes.

O anti-semitismo ibérico nos séculos XV e XVI produziu as migrações das antigas comunidades judaicas da região para a Europa germânica protestante, mais tolerante a sua presença. Com esses judeus migrou também a tecnologia financeira e comercial que eles já haviam desenvolvido, e contribuindo para a subseqüente prosperidade desses países por alguns séculos, mas no final do século XIX até meados do século XX, algumas ideologias progressistas procuraram ganhar popularidade invocando o ódio contra minorias, e seu sucesso temporário se manifestou em grandes calamidades.

Alegar que o anti-semitismo é o resultado do apego a tradição é um pensamento muito pueril, pois ignora que tradições não são uniformes e é a exata diversidade de tradições concorrentes que permite a longo prazo revelar a moralidade superior de certas atitudes sobre as outras.

Esse é o único método de revelação da moral.



E é claro que você está disposto a demonstrar como o movimento que tornou o cenário propício à revelação da moral - a reforma protestante, é fruto do apego à tradição - nada progressista.

KO!
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A reforma protestante iniciou-se da atitude reacionária e local de alguns sacerdotes contra práticas corrompidas da igreja católica. Exceto na Inglaterra, onde a Igreja da Inglaterra cortou vínculos com a Igreja de Roma por decreto real, sem contudo mudar muitas tradições populares.

No entanto, as imposições religiosas de regentes protestantes e católicos sobre seus sujeitos nas diversas nações germânicas do Império Romano Germânico, e nos Países Baixos Espanhóis foram motivo para sangrentas e duradouras guerras religiosas.
[N]ão é uma "conspiração" propriamente dita aquilo que denunciamos, mas apenas os efeitos cumulativos devastadores de uma série de ideários progressistas que podem ser promovidos sem a necessidade de qualquer grande centralização, sem uma sinistra organização secreta para dominação e destruição do mundo.
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Citação de: kika
A criação do Estado de Israel, por sua vez, foi um tipo de solução moral "descoberta" por uma minoria dotada de poder e imposta a todos os demais - progressista por definição, em resposta ao emprego do recurso de violência justificado pela tradição.

Pode-se alegar a partir disso que o Estado de Israel é um bom exemplo das consequências negativas do progressismo - mas também que a própria tradição, idependente se justificada ou não, pode levar a desfechos tão ou mais destrutivos, pelo próprio acúmulo gradual no processo de destilação do conhecimento moral.


Como eu disse acima, uma observação mais cuidadosa dos episódios de violência anti-semita perceberá que as ideologias motivantes foram de caráter progressista.

O Estado de Israel foi um dos escólios de uma guerra complexa, onde ambos os lados apresentavam variados graus de contaminação ideológica progressista, de maneira que é difícil isolar completamente a questão.

Mas devo concordar que uma das razões para a instabilidade persistente da região se deve a demarcação burocrática de fronteiras realizada pela Liga das Nações/ONU, assim como na África, onde fronteiras arbitrárias desenhadas por potencias colonialistas são até hoje a fonte de diversos conflitos étnicos violentos.
« Última modificação: 17 de Março de 2011, 09:53 por user f.k.a. Cabeção »
[N]ão é uma "conspiração" propriamente dita aquilo que denunciamos, mas apenas os efeitos cumulativos devastadores de uma série de ideários progressistas que podem ser promovidos sem a necessidade de qualquer grande centralização, sem uma sinistra organização secreta para dominação e destruição do mundo.
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Citação de: kika
Exemplos diversos do potencial destrutivo dos tradicionalismos e progressismos não faltam para colocar a ambos no mesmo saco.

Nem toda tradição é fruto da destilação do conhecimento moral positivo - muitas vezes elas brotam da superstição e misticismo injustificado, acumulando gradualmente um grande potencial, destruindo tudo em volta quando arrebenta, podendo levar a soluções posteriores tão destrutivas quanto. Da mesma forma, nem todo progressismo é uma resposta a tradições nocivas. Ambos devem sempre ser postos à prova, questionados - sobretudo no que diz respeito às motivações.


Você continua não percebendo o ponto aqui.

Eu não estou dizendo que métodos antigos de proceder são necessariamente mais adequados que métodos inovadores. Defender algo do tipo seria negar a possibilidade de evolução das instituições sociais.

A questão é mais sutil do que isso. A questão não é decidir se a mudança deve ou não ocorrer na sociedade, mas sim entender como ela ocorre de fato, e sobretudo quais são as conseqüências de uma compreensão errada desse processo.

A tradição não é uma sentença de morte que o passado impõe sobre as possibilidades do presente, mas o mecanismo, o único existente, através do qual nós podemos usar para o nosso beníficio o conhecimento adquirido pelas experiências passadas, cristalizado em nossas instituições.

É a tradição que permite o acúmulo de capital informacional sobre os processos sociais, e que permite interações co-operativas complexas entre indivíduos, com base na extensão do processo de reputação que eu expliquei no primeiro texto.

Mas essas interações só aumentam em complexidade porque alguns indivíduos decidem inovar no seu comportamento, rompendo localmente com alguns métodos antigos de proceder, e adquirindo reputação positiva para as inovações introduzidas, que passam então a serem transmitidas por tradição e incorporadas em instituições.

Esse problema pode ser atacado de um outro ângulo. Como foi observado anteriormente, inovações são introduzidas pelo processo de escolha entre cenários futuros possíveis, ou seja, pelo planejamento baseado no conhecimento acumulado que permite inferir os resultados de possíveis mudanças em certos padrões de comportamento, visando certos resultados. A questão então passa a ser quem efetivamente pode planejar, em vista da distribuição de informação existente. Conservadores entendem que o planejamento deve ser um encargo individual, enquanto progressistas vêem o planejamento como algo a ser sobretudo delegado a um comitê central, e superimposto sobre os sujeitos desse governo.

Sendo assim, o que eu pretendo discutir é a impossibilidade do progressismo como mecanismo de ordem social.

O problema é que a maior parte da informação da qual dependem os processos da sociedade está distribuída de maneira bastante esparsa entre milhões de indivíduos.

Isso porque o conhecimento relevante não é apenas o conhecimento científico abstrato, que um comité central de cientistas e engenheiros pode discutivelmente dar conta de agregar, mas é o vasto conhecimento prático de assuntos mundanos, como as circunstâncias de tempo, espaço e qualidade segundo as quais os recursos reais da sociedade estão distribuídos.

Para entender bem isso, vamos sair do plano teórico abstrato e discutir um exemplo concreto: o planejamento central da agricultura, tal qual era executado na URSS.

Os soviéticos compreendiam que, como tudo mais, a produção agrícola era algo a ser delegado a um comité de especialistas em agricultura, capaz de organizar e processar a informação importante sobre a capacidade produtiva, muito melhor do que rústicos e ignorantes agricultores espalhados por um vasto território. A primeira vista parece algo bastante razoável de se acreditar.

Após anos e anos de diversos planos sucessivos, o resultado que se observou foi o seguinte: A URSS, o país com solo fértil mais abundante do mundo, não era capaz de suprir sua população com cereais básicos. E, mais interessante ainda, o suprimento interno de cerais era em sua maior parte garantido por uma fração minoritária das terras, de especial baixa qualidade, mas cuja produção não estava sendo regulada pelo comité de agronomia.

O que aconteceu? Uma resposta fácil seria dizer que o comité não fez o seu trabalho direito, ou por incompetência, ou por corrupção, ou pelos dois. Esse foi o principal motivo quase sempre levantado, e punições terríveis (em geral exílio na Sibéria ou execução) aguardavam aqueles que ousassem violar os complicados códigos regulatórios que emergiam a cada novo plano, a fim de abarcar dessa vez os problemas do anterior. Não funcionou.

O ponto é que apesar dos membros do comité serem os melhores cientistas e engenheiros do país, o conhecimento conseqüente que eles dispõem para gerir uma economia de larga escala ainda é muito pequeno. Eles podem até, discutivelmente, acumular entre eles tudo que se sabe de abstrato sobre técnicas agrícolas, mas para resolver o problema real essa é apenas uma fração minúscula da informação relevante.

O grosso do volume de informação encontra-se esparsamente distribuído entre milhares de pessoas, e mesmo as técnicas estatísticas mais detalhadas não podem dar conta de transmiti-lo

Trata-se do conhecimento mundano e circunstancial, de fatos como distribuição espacial, temporal e qualitativa de recursos materiais e humanos particulares. O conhecimento científico abstrai circunstâncias justamente para entender padrões gerais, mas quando se trata de empregar esse conhecimento de maneira prática, informação sobre circunstâncias passam a ser relevantes, e não há como transferi-las para o comité central sem incorrer em perdas de grande magnitude, e mesmo que fosse possível, o comité não poderia analisá-las, uma vez que ele já não conseguia lidar com a limitada quantidade de informação contida nos agregados estatísticos.

Serei mais específico. Um lote de terra próximo a Kiev, para um comité central, é apenas um entre milhões de outros similares. Ele é tratado da mesma forma padronizada, pois seria custoso demais inspecionar em detalhe suas características. Assim esse comité determina que os lotes da região devem ser destinados a produção de trigo, segundo certos parâmetros que serão eventualmente fiscalizados, e o único incentivo do produtor local é se certificar que ele cumpriu os parâmetros corretamente, a fim de não ser enviado para a Sibéria.

Mas para um eventual proprietário num regime de mercado, esse lote é bastante complexo em si. Algumas áreas são mais propícias a algumas culturas, assim como outras se encontrem exaustas e precisem de repouso. O que eventualmente determinará o seu emprego dessa informação circunstancial que ele e ninguém mais possui são os preços de mercado, que permitem calcular de maneira relativamente precisa a lucratividade de cada uma das explorações conhecidas do terreno. Como o proprietário tem o incentivo de procurar o maior lucro, ele aproveitará o seu capital da forma mais eficaz, espontaneamente.

É claro que ele pode errar nas suas estimações, principalmente quando ele desvia bastante do senso comum, e isso ocorre o tempo inteiro, mas apenas numa dimensão pequena de um lote. O seu vizinho pode muito bem ter achado loucura plantar cenouras naquele inverno, tendo mantido a prática tradicional de plantar batatas, mesmo com o preço destas não muito favorável. Tivesse o inverno sido menos rigoroso, as cenouras teriam sido um belo investimento. Mas infelizmente, o inverno foi severo, e aqueles que foram mais conservadores colheram os resultados. E o aprendizado tirado dessa estação será incorporado nos comportamentos da próxima.

Já os erros do comité central, além de serem mais comuns, devido a informação de baixa resolução, são mais extensivos, e dificultam a comparação entre soluções alternativas, pois são uniformes.


Pode parecer uma digressão desconexa do tópico, mas trata-se de uma ilustração imponente de um processo muito mais abrangente de interpretação de como a mudança se introduz na sociedade e como o nosso conhecimento efetivamente cresce.
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Citação de: Kika
[...]

O progressismo é, portanto, reflexo inevitável da mais representativa instituição ocidental moderna - a engenhosidade.



Com relação ao resto, sintetizado na frase selecionada, eu devo concordar, mesmo que de uma perspectiva completamente oposta.

O progressivismo não é uma idéia recente, mas o seu sucesso político nos últimos 200 anos se deve muito ao inegável sucesso tecnológico da ciência moderna, e as diversas interpretações erradas desse sucesso. A vantagem que a ideologia progressista encontrou nos últimos séculos se deveu ao desenvolvimento mais rápido da ciência formal moderna em comparação as outras formas de entendimento humano, e aos abusos intelectuais que propuseram analogias entre a sociedade e um laboratório, entre governos e cientistas, e entre súditos e cobaias.


O triunfo do empiricismo sugere que este princípio racional seja extendido para a sociedade, de maneira a melhorá-la, como melhoramos as diversas tecnologias existentes.

Aplicar as tecnologias e métodos científicos para resolver os ditos problemas sociais parecia ser uma idéia brilhante.

Ela foi a justificativa por trás dos sinistros experimentos coletivos aos quais bilhões de seres humanos foram submetidos.

O erro não está no empiricismo em si, mas na disposição do experimento social, que não é análoga ao experimento científico natural, mas cuja sutileza das diferenças, embora fundamental, já enganou diversas mentes brilhantes.

A noção de que leis são estabelecidas por governos para resolver os "problemas sociais" por eles identificados é especialmente equivocada, e que uma abordagem científica desses mesmos "problemas globais" pode ter algo a contribuir a maneira como leis são produzidas é inconsequente.

Leis são o resultado do processo descrito acima de destilação individual de experiências e reputações, incorporadas em tradições e harmonizadas ao longo do tempo entre um grupo.

O problema de ordem social é definido no nível individual: como o indivíduo responderá a realidade que a ele se apresenta de forma satisfatória, levando em conta suas expectativas sobre o comportamento dos demais indivíduos. Instituições o auxiliam a empregar o conhecimento e reputação de seus antecessores nesse processo de decisão. Um desses instrumentos institucionais é o método científico e o conhecimento por ele acumulado, mas não são os únicos, como visto acima.

Esse mecanismo de depuração individual, porém interdependente, de decisões produz a percepção de harmonia e ordem social que chamamos de lei. A ordem se deve exatamente ao fato da maior parte dos indivíduos não fugirem demais de um comportamento previsível e tradicional, mas ainda assim inovarem de tempos em tempos em suas soluções particulares, permitindo a evolução da própria tradição quando essas soluções se mostram eficazes.

A miséria intelectual do progressismo está na sua concepção equivocada do problema de ordem social como sendo uma questão de caráter coletivo, cujas soluções inovadoras devem ser impostas as ditas coletividades, e que este é o mecanismo daquilo que eles entendem por progresso social.

Tanto o progressismo quanto o conservadorismo podem empregar o ferramental e a linguística do método científico ou de outras formas de conhecimento, não é isso que os difere. O que os difere é a compreensão do problema em si. E a compreensão progressista está profundamente errada.

Ela errada mesmo quando aplicada a simples inovação de caráter científico ou tecnológico. Embora inovações científicas e tecnológicas às vezes apresentem uma penetração rápida, ou "revolucionária", devido sobretudo a facilidade da constatação de sua eficácia em relação a inovações sociais e econômicas complexas, elas tampouco são introduzidas "coletivamente". Inovadores individuais testam novas possibilidades localmente, e descartam vários protótipos e modelos até encontrarem algo que pode ser refinado a ponto de se tornar algo competitivo em relação as tecnologias já instaladas. E os consumidores, por sua vez, julgam se a inovação vale os custos de substituição envolvidos.

Toda essa gestão de informação se passa no nível individual, de cada agente, exceto em casos muito raros onde governos impõem padrões tecnológicos, mas mesmo esses novos padrões não costumam ser inovações propriamente ditas, mas soluções testadas em âmbito local e agora extendidas compulsoriamente ao resto da população.



« Última modificação: 17 de Março de 2011, 12:15 por user f.k.a. Cabeção »
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A reforma protestante iniciou-se da atitude reacionária e local de alguns sacerdotes contra práticas corrompidas da igreja católica. Exceto na Inglaterra, onde a Igreja da Inglaterra cortou vínculos com a Igreja de Roma por decreto real, sem contudo mudar muitas tradições populares.

No entanto, as imposições religiosas de regentes protestantes e católicos sobre seus sujeitos nas diversas nações germânicas do Império Romano Germânico, e nos Países Baixos Espanhóis foram motivo para sangrentas e duradouras guerras religiosas.


Assim como a Caça às Bruxas. Estamos falando do Ocidente. Progressista por definição. O próprio cristianismo - antes perseguido, terminou por ser imposto, tornando-se intolerante, um milênio mergulhado no obscurantismo por força da tradição, com um sistema polítco, social e econômico rígido em progressão social - rompido pelo reencontro com o progresso.

Onde o conhecimento é cultivado o progressismo é inevitável. A engenharia social é fruto da aspiração humana por um mundo melhor - ingênua, certamente, mas inabalável.

E a não ser que você defenda o retorno ao obscurantismo.

Tem jeito, não! III

Não conheço ninguém normal.

Ricardo Correia

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Tentando entender-vos. Não estarão apenas a confundir-se na linguagem, especialmente, no que diz respeito ao descartar, dos efeitos perversos, existentes na vossa visão conservador/progressista.

Conservador é evolutivo. Existem os conservadores criminosos que perseguem hereges.

O Progressista é evolutivo. Existem os criminosos que perseguem os reacionários.



A meu ver, ambos, conservadores e progressistas se comportam do mesmo modo. Alias, o Rodrigo disse-o muitas vezes, ao falar de merda e cheiro  :emoticon12:

Offline Kika

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Tentando entender-vos. Não estarão apenas a confundir-se na linguagem, especialmente, no que diz respeito ao descartar, dos efeitos perversos, existentes na vossa visão conservador/progressista.

Conservador é evolutivo. Existem os conservadores criminosos que perseguem hereges.

O Progressista é evolutivo. Existem os criminosos que perseguem os reacionários.



A meu ver, ambos, conservadores e progressistas se comportam do mesmo modo. Alias, o Rodrigo disse-o muitas vezes, ao falar de merda e cheiro  :emoticon12:


A idéia é essa.
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Offline Herf

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Conservador é evolutivo. Existem os conservadores criminosos que perseguem hereges.

O Progressista é evolutivo. Existem os criminosos que perseguem os reacionários.
Ora ora, vejam só.

Conservadores que perseguem hereges são "conservadores criminosos". Já progressistas que perseguem reacionários são tão somente "criminosos" - é, só "criminosos" mesmo, nenhuma menção ao fato de serem progressistas.

Notável, notável... =/

Ricardo Correia

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Herf,

Seu apontamento deve-se a um mero lapso. Pretendi descrever os dois como iguais.

Um psicanalista diria que foi o subconsciente a falar. Mas, não faço qualquer distinção.
 
 

Offline Kika

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O progressivismo não é uma idéia recente, mas o seu sucesso político nos últimos 200 anos se deve muito ao inegável sucesso tecnológico da ciência moderna, e as diversas interpretações erradas desse sucesso.


Ou talvez se deva simplesmente a aplicação prática desse sucesso tecnológico. Seus textos me passam a impressão de um entendimento compartimentado, como se os movimentos históricos não fossem contínuos, mas um constante rompimento com os momentos históricos anteriores. Como se o progressismo fosse um rompimento com o conservadorismo – enquanto eu os vejo como movimentos paralelos.

O progressismo dos últimos duzentos anos é conseqüência do rearranjo social sem precedentes na história – o sucesso tecnológico e conseqüente crédito na forma de pensar que o torna possível é conseqüência da própria mudança por ele proporcionada. A otimização dos meios de produção, que proporcionou tanto o crescimento populacional e surgimento dos grandes centros urbanos, quanto o aumento da expectativa de vida, promoveu um inevitável otimismo quanto ao futuro.

A fé na tradição  diminui a medida que cresce a fé na engenhosidade, mas principalmente na medida em que o conhecimento e a nova realidade vivenciada a desmistificam.

O desenvolvimento dos grandes centros urbanos, contribui imensamente para isso – substituindo a noção de coletividade pela noção de individualidade. Essa dispersão que o indivíduo experimenta na impessoalidade das relações, por outro lado, promove também a sensação de desamparo – que o mercado não consegue suprir. É onde entram em cena os sindicatos e a própria noção da necessidade de um estado intervencionista. É preciso lembrar que as populações que formaram os primeiros centros urbanos e, boa parte dela atualmente, migraram dos pequenos centros, guiadas pelo tradicionalismo e amparadas pela sensação de proximidade – deficientes nos grandes centros.

O que pode ser observado comparando os pequenos e grandes centros urbanos de hoje, onde o conservadorismo, a tradição e o livre-mercado encontram mais espaço naqueles – estando esses mais sujeitos ao intervencionismo e ao progressismo. Uma novidade histórica dos últimos duzentos anos. Obviamente que esse rearranjo é uma via de mão dupla, principalmente com o desenvolvimento das tecnologias de transportes e comunicações – promovendo um fluxo de influências entre os grandes e pequenos centros.

Outra característica dos grandes centros responsável por essa mudança de percepção é a pluralidade étnica, religiosa, cultural etc onde o processo de destilação do conhecimento moral, pela própria dispersão e impessoalidade,  se dá principalmente através do pré-conceito puro dirigido a grupos e não a indivíduos – promovendo perseguições injustificadas – enquanto nos pequenos centros, embora esses não estejam livres do pré-conceito, a chance de se dar pelo pós-conceito são maiores, dirigido mais ao indivíduo, pelo comportamento particular, do que ao grupo a que pertence.

Então não é como se o progressismo estivesse dirigido para a coletividade, enquanto o conservadorismo está para a individualidade – mas o contrário, ambos estão muito mais dirigidos “pela” do que “para a”. São muito mais conseqüência do que causa do contexto, embora haja exceções. Assim me parece muito mais sensato supor que o progressismo é antes uma conseqüência da necessidade de adaptação ao rearranjo social promovido pelo sucesso tecnológico e pelo próprio crescimento exponencial do conhecimento, sobretudo, a partir do último século - do que um rompimento otimista, intencional ou não, com o momento anterior ou qualquer outra coisa.

A coesão dos pequenos centros promove maiores e melhores recursos de recolocar seus próprios desajustados do que a dispersão dos grandes centros, quando não afetados pela escassez de meios, contribuindo para o aumento do número de desajustados nos grandes centros  – são realidades distintas. As soluções encontradas por aquela não conseguem resolver os problemas dessa e nem sequer apontam uma direção. E para agravar esse rearranjo ainda é algo relativamente recente, confuso e pouco experimentado – constantemente se auto-corrigindo, buscando novas soluções para problemas produzidos por soluções anteriores.

Se o progressismo e intervencionismo vigoram é porque o conservadorismo gradualista tradicionalista e livre mercado falharam em fornecer soluções para os problemas surgidos desse novo rearranjo social. As propostas progressistas otimistas surgem da necessidade de solucionar os problemas do próprio progresso, onde as fórmulas do passado falharam – aliadas a disseminada confiança na engenhosidade, promovida pelo sucesso tecnológico.

Tem jeito, não! IV
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Offline Kika

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Aliás, nem é preciso ir tão longe - basta comparar a dinâmica social do centro com a da periferia, nos grandes e pequenos centros. Dez minutos de viagem dentro de uma cidade faz parecer que você migrou entre dois mundos - porque, de fato - são mundos diferentes.

Um bom exemplo são as próprias relações econômicas - onde o comércio local, muitas vezes, baseia-se nas relações de confiança, cujo "pendura" é um bom exemplo, enquanto o comércio central necessita de maiores garantias - o crédito é impessoal.
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Offline Cameron

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O mesmo poderia ser dito em relação as comunidades com poucos habitantes e as grandes metrópoles, enquanto em uma você não compra uma camiseta nova sem que todos fiquem sabendo na outra as pessoas estão pouco se lixando se você estiver em um estágio terminal de câncer.
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Offline user f.k.a. Cabeção

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  • How Long Is the Coast of Britain?
Citação de: kika
Assim como a Caça às Bruxas. Estamos falando do Ocidente. Progressista por definição. O próprio cristianismo - antes perseguido, terminou por ser imposto, tornando-se intolerante, um milênio mergulhado no obscurantismo por força da tradição, com um sistema polítco, social e econômico rígido em progressão social - rompido pelo reencontro com o progresso.

Onde o conhecimento é cultivado o progressismo é inevitável. A engenharia social é fruto da aspiração humana por um mundo melhor - ingênua, certamente, mas inabalável.

E a não ser que você defenda o retorno ao obscurantismo.

Tem jeito, não! III


A caça as bruxas e a perseguição religiosa durante a Idade Média, quando a Igreja Católica era a unica entidade central de poder existente, foi praticamente nula. Mais pessoas foram mortas em tiroteios em shopping centers nas últimas 3 décadas do que bruxas queimadas entre 500 e 1300.

A partir do renascimento e da idade moderna, as recentes autoridades nacionais começaram a explorar demagogicamente a questão da religião como instrumento de estabelecimento do seu poder, como ocorreu na Inquisição Espanhola e nas diversas guerras religiosas no centro europeu.

De qualquer maneira, condenar o cristianismo pelo que ele ainda guardou, durante algum tempo, das barbaridades pagãs, é ignorar justamente que a evolução do pensamento cristão foi exatamente o que criou na nossa civilização o entendimento necessário para o abandono da crueldade e intolerância comuns aos povos primitivos.

Sim, a engenharia social é o resultado de boas intenções, o que portanto não a impede de pavimentar a estrada que leva ao inferno.
« Última modificação: 18 de Março de 2011, 13:13 por user f.k.a. Cabeção »
[N]ão é uma "conspiração" propriamente dita aquilo que denunciamos, mas apenas os efeitos cumulativos devastadores de uma série de ideários progressistas que podem ser promovidos sem a necessidade de qualquer grande centralização, sem uma sinistra organização secreta para dominação e destruição do mundo.
- ímpio, sobre conservadores

Offline Kika

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Sim, a engenharia social é o resultado de boas intenções, o que portanto não a impede de pavimentar a estrada que leva ao inferno.


E sim, o conservadorismo, a religião, filosofia, ciência etc etc etc e até mesmo um ato puro de solidariedade podem pavimentar a estrada que leva ao inferno - simplesmente porque os acidentes estão fora do nosso controle. Diante dos desafios, tomar uma iniciativa qualquer, por mais bem supostamente planejada, pode ser irresponsável - mas não tomar nenhuma também é. A estrada para o inferno se auto-pavimenta na falta de colaboradores.

Depois comento o restante do texto.
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