Allan Kardec – um racista brutal e grosseiro – 4A contaminação do racismo kardecista no espiritismo tupiniquim
Fabiano Armellini Chegou até nós um longo, evasivo e prolixo artigo (
www.espirito.org.br/portal/artigos/paulosns/allan-kardec-um-racista.html), proveniente de um site espírita brasileiro, onde um autor espírita, chamado Paulo da Silva Neto Sobrinho, busca escusar o racismo de Allan Kardec, o codificador do espiritismo moderno, atacando artigos e cartas do site Montfort pelas citações que extraímos dos próprios livros do espiritismo.
Ocorre que a tentativa do autor não só foi frustrada, como totalmente infeliz, uma vez que ele mesmo acaba admitindo o racismo de Kardec e do espiritismo como verdade evidente. Pois diz ele em certa altura de seu longuíssimo texto:
“Quer [o Prof. Orlando] goste ou não, existem pessoas mais inteligentes que outras, povos mais inteligentes que outros e raças mais inteligentes que outras, mas isso não quer dizer, como bem coloca Kardec, que isso será por toda a eternidade pois o espírito ao reencarnar irá renascer nas mais evoluídas, num progresso sem fim, até a perfeição possível a um ser humano.” (Paulo da Silva Neto Sobrinho, Allan Kardec, um racista brutal e grosseiro?!? Os destaques são nossos)
Ele tenta justificar o racismo de Kardec argumentando que, pela bem falsa doutrina da Reencarnação dos espíritas, uma pessoa negra, que segundo ele seria atualmente inferior a uma pessoa de cor branca, reencarnar-se-ia numa futura existência num corpo de branco. E portanto, para Allan Kardec, todos seriam irmãos, embora uns menos “evoluídos” do que outros.
O autor parece não entender que o racismo não consiste em achar ou não que um negro tenha alma ou possa se salvar, mas em considerar que as raças sejam essencialmente umas melhores do que as outras. Isto é, que uma pessoa, por ser negra, é necessariamente menos capaz ou de menos valor do que uma pessoa de raça branca. Esse pensamento monstruoso, falso e contrário à justiça e à caridade é um dos germes da Eugenia e do Nazismo.
O autor espírita a que nos referimos, em consonância com Allan Kardec, vai defender, em seu artigo, que o homem negro estaria numa escala de “evolução” espiritual inferior à do homem branco. E que um negro precisaria se reencarnar como branco futuramente, quando atingiria um nível de aperfeiçoamento espiritual. Ora, essa é justamente a tese racista, brutal e horrorosa que condenamos.
Por incrível que pareça, para esclarecer esta doutrina o autor cita na íntegra um artigo de Allan Kardec chamado “A perfectibilidade da raça negra”, que foi escrito para a edição de abril de 1862 da Revue Spirite, um periódico que o próprio Kardec fundou, onde ele expõe sem máscaras todo o seu preconceito racista.
O texto é tão brutalmente racista, como mostraremos mais adiante, que os adeptos do kardecismo deveriam se envergonhar dele. Isto pelo simples fato de que o texto foi escrito pelo codificador da doutrina que eles professam. O normal seria que eles tentassem jogar o texto no esquecimento. Mas pelo contrário, o autor espírita que nos critica fez questão de publicá-lo na íntegra, em um site espírita, o que nos faz levantar duas hipóteses: ou esta pessoa não entende o que lê, ou é tão brutal e racista quanto Allan Kardec.
Ocorre que este artigo não é um trabalho isolado e sem importância de Kardec, pois é inclusive parcialmente citado ipsis litteris em uma das principais obras do fundador do espiritismo moderno, “A Gênesis” (cf. Allan Kardec, “A Gênesis”, 36a edição, FEB, Cap. XI, no. 32, p. 221). Daí o esforço dos espíritas em tentar justificar seu fundador... E é nesta tentativa que os autores espíritas acabam se complicando ainda mais. Se os autores espíritas atuais, Internet afora, realmente crêem no que dizem em suas defesas de Kardec, devemos expandir a acusação de racismo não só a ele, mas também a todos esses espíritas.
Passemos agora ao exame deste artigo de Allan Kardec, utilizado pelo autor espírita que nos criticou, na tentativa de provar que Kardec não era racista. Na leitura do texto, ficará evidente que é o contrário.
O texto trata da questão das aptidões inatas das pessoas. Kardec não admite que Deus possa dar mais a uns do que a outros, pois é absolutamente igualitário no campo espiritual. Se há diferença de dons, segundo o Kardec, é indicativo que aquele que tem mais aptidões tem uma alma mais “evoluída” do que a daquele que tem menos aptidões. “Evolução” esta proveniente de encarnações anteriores da alma.
O princípio é falso, pois Deus pode sim dar mais a uns do que a outros. Na parábola dos talentos, Cristo nos ensina que Deus não dá igualmente os talentos: a alguns Deus dá mais, a outros dá menos; mas cobra na medida do que foi dado.
"A quem muito for dado, muito será exigido" (Lc XII, 48).
A Justiça de Deus não consiste em dar tudo igualmente a todos, mas sim em cobrar de acordo com o que é dado. Kardec recusa este ensinamento de Cristo, e associa a justiça à igualdade. Para ele, Deus distribui igualmente Seus dons:
"Deus, em sua justiça, não pode ter criado almas mais, ou menos, perfeitas" (Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, Instituto de Difusão Espírita, 79a edição, 1993, q.222, p.127).
Partindo então dessa premissa falsa, de que os mais capazes têm uma alma mais “evoluída”, Kardec passa das pessoas aos povos, e destes, às raças. E aqui começam as pérolas (os destaques nas citações a seguir são todos nossos).
Kardec começa afirmando que é materialmente impossível um selvagem (negro, como ele vai explicitar mais adiante) se torne um sábio:
“O selvagem feroz pode, numa só existência, adquirir as qualidades que lhe faltam? Que educação dar-lhe-íeis, desde o berço, para fazerdes deles um São Vicente de Paulo, um sábio, um orador, um artista? Não; é materialmente impossível.” (Allan Kardec, “Perfectibilidade da raça negra” Revue Spirite, Abril de 1862)
Depois, Kardec afirma que, sem a reencarnação, Deus seria injusto por dar mais aptidões aos brancos do que aos negros:
“Mas, então, porque nós, civilizados, esclarecidos, nascemos na Europa antes que na Oceania? Em corpos brancos antes que em corpos negros? Por que um ponto de partida tão diferente, se não se progride senão como Espírito? Por que Deus nos isentou do longo caminho que o selvagem deve percorrer? Nossas almas seriam de uma outra natureza que a sua? Por que, então, procurar fazê-lo cristão? Se o fazeis cristão, é que o olhais como vosso igual diante de Deus; se é vosso igual diante de Deus, porque Deus vos concede privilégios? Agiríeis inutilmente, não chegaríeis a nenhuma solução senão admitindo, para nós um progresso anterior, para o selvagem um progresso ulterior; se a alma do selvagem deve progredir ulteriormente, é que ela nos alcançará; se progredimos anteriormente, é que fomos selvagens, porque, se o ponto de partida for diferente, não há mais justiça, e se Deus não é justo, não é Deus. Eis, pois, forçosamente, duas existências extremas: a do selvagem e a do homem mais civilizado.” (Allan Kardec, “Perfectibilidade da raça negra” Revue Spirite, Abril de 1862)
E a seguir, Kardec afirma que as raças “inferiores” têm "atrofia dos órgãos da inteligência", isto é, como se diz de modo bastante vulgar e ofensivo, seriam “burros”. Afirma Allan Kardec que dar um corpo “evoluído” para a alma de um negro, menos “evoluído” segundo ele, seria como dar um excelente piano a alguém que não sabe tocar esse instrumento:
“O exame frenológico dos povos pouco inteligentes constata a predominância das faculdades instintivas, e a atrofia dos órgãos da inteligência [!!!]. O que é excepcional nos povos avançados, é a regra em certas raças. Por que isto? É um injusta preferência? Não, é a sabedoria. A natureza é sempre previdente; nada faz de inútil; ora, seria uma coisa inútil dar um instrumento completo a quem não tem meios de se servir dele. Os Espíritos selvagens são Espíritos de crianças, podendo assim se exprimir; entre eles, muitas faculdades ainda estão latentes. Que faria, pois, o Espírito de um Hotentote no corpo de um Arago? Seria como aquele que não sabe a música diante de um excelente piano. Por um razão inversa, que faria o Espírito de Arago no corpo de um Hotentote? Seria como Liszt diante de um piano que não teria senão algumas más cordas falsas, às quais seu talento jamais chegaria a dar sons harmoniosos.” (Allan Kardec, “Perfectibilidade da raça negra” Revue Spirite, Abril de 1862)
Será que Kardec tinha noção que os jesuítas, já há mais de 300 anos, ensinavam música erudita aos índios da América? Graças a Deus eles não pensavam como Kardec...
Após essas declarações escandalosas, Kardec conclui associando o "grau de adiantamento" do corpo com o da alma:
“A Natureza, portanto, apropriou os corpos ao grau de adiantamento dos Espíritos que devem neles se encarnar; eis porque os corpos das raças primitivas possuem menos cordas vibrantes que os das raças avançadas.” (Allan Kardec, “Perfectibilidade da raça negra” Revue Spirite, Abril de 1862)
Mais adiante, Kardec vai afirmar que a raça negra só pode progredir através do cruzamento com brancos... mais uma afirmação brutal e horrorosa:
“As raças são também perfectíveis pelo corpo, mas isso não é senão pelo cruzamento com as raças mais aperfeiçoadas, que lhes trazem novos elementos que enxertam [!!!], por assim dizer, os germes de novos órgãos.” (Allan Kardec, “Perfectibilidade da raça negra” Revue Spirite, Abril de 1862)
E na seqüência ele garante que os negros “SEM DÚVIDA” são inferiores:
“Os negros, pois, como organização física, serão sempre os mesmos; como Espíritos, sem dúvida, são uma raça inferior, quer dizer, primitiva; são verdadeiras crianças às quais pode-se ensinar muita coisa;" (Allan Kardec, “Perfectibilidade da raça negra” Revue Spirite, Abril de 1862)
E, para finalizar, Kardec afirma que os negros podem progredir, numa outra encarnação, dentro de limites estreitos , dizendo expressamente que a "raça negra, corporalmente falando, jamais alcançará o nível das raças caucásicas"... espiritualmente, sim, mas em outras encarnações:
“Sob o mesmo envoltório, quer dizer, com os mesmos instrumentos de manifestação do pensamento, as raças não são perfectíveis senão em limites estreitos, pelas razões que desenvolvemos. Eis por que a raça negra, enquanto raça negra, corporeamente falando, jamais alcançará o nível das raças caucásicas; mas, enquanto Espíritos, é outra coisa; ela pode se tornar, e se tornará, o que somos; somente ser-lhe-á preciso tempo e melhores instrumentos. Eis porque as raças selvagens, mesmo em contato com a civilização, permanecem sempre selvagens; mas, à medida que as raças civilizadas se ampliam, as raças selvagens diminuem, até que desapareçam completamente, como desapareceram as raças dos Caraíbas, dos Guanches, e outras. Os corpos desapareceram, mas em se tornaram os Espíritos? Mais de um, talvez, esteja entre nós”. (Allan Kardec, “Perfectibilidade da raça negra” Revue Spirite, Abril de 1862)
* * *
As afirmações de Kardec são tão brutalmente racistas, que falam por si só e dispensam maiores comentários... elas deixam patente que Kardec era de fato racista, e dos mais grosseiros.
Estas citações vêm se somar às citações que já havíamos apresentado anteriormente, e que estão presentes em praticamente todas as obras doutrinárias de Kardec: “A Gênese”, “O Livro dos Espíritos”, “O Evangelho segundo o Espiritismo”, “O Que é o Espiritismo?” e nas suas “Obras Póstumas”.
Em todas elas, ele utiliza suas concepções racistas como prova da necessidade da Reencarnação para explicar o que ele entende como Justiça Divina, dentro do seu sistema igualitário, onde tudo deve ser dado igualmente a todos, negando o ensinamento de Cristo na parábola dos talentos.
A doutrina da reencarnação espírita conduziu logicamente Allan Kardec diretamente ao racismo. Ou pelo menos abre uma brecha doutrinária que permite a justificação de uma atitude racista. Essas crenças na reencarnação e na evolução se harmonizam perfeitamente com o sistema doutrinário racista do nazismo.
Ensina-nos Nosso Senhor que: “Não pode a árvore má dar bom fruto” (Mt VII, 18). Como poderia da árvore racista de Allan Kardec nascer algo de bom?
É de se espantar que haja escritores de sites espíritas que defendam Allan Kardec até as últimas conseqüências, a ponto de aceitar e defender o racismo mais brutal e grosseiro?
Estes são os frutos dessa árvore má, que é o espiritismo.
O que é mais incrível, e o que mais entristece, é que esta doutrina tenha encontrado praticamente o seu único reduto, nos dias atuais, exatamente no nosso Brasil, onde as raças foram tão integradas pela cultura e pela miscigenação, graças à doutrina católica que nos ensina que todos os homens descendem de um só casal original, e que, por isso, todos os homens são irmãos. E, mais ainda, que pelo Batismo nos tornamos todos, de todas as raças, filhos adotivos de Deus Altíssimo.
Para citar este texto:
Orlando Fedeli - "Allan Kardec, um racista brutal e grosseiro"
MONTFORT Associação Cultural
http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=religiao&artigo=kardec〈=bra
Online, 09/10/2008 às 21:44h